Parece que o único depoimento existente sobre Marco Giovanni Ferrari tenha sido falado por seu neto Luigi, filho de Valentino Cesare, e recolhido por Marino.
Isso é um mistério. Mario, filho de Valentino, não falava de seu avô Marco a seus filhos? Falava de seu pai? Por que na sala de visitas das casas onde morou no Rio Grande do Sul, constava duas grandes fotografias, uma de sua mãe, outra de sua tia materna com o marido, mas não de seu pai?
Meu pai, por exemplo, nunca ouviu falar de seu bisavô Marco Giovanni. Tampouco nada sabe sobre seu avô, Valentino Cesare.
Quem mais soube de Marco Giovanni além de Luigi? Quem mais sabe sobre Valentino Cesare além das pouquíssimas informações que irão aparecer aqui – parcas, mínimas, um pequeno fragmento de uma história?
sábado, 31 de março de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
VALENTINO CESARE FERRARI
A comuna de Zocca em 2012. Fotografia de “Paesi on Line”.
Valentino Cesare Ferrari está registrado no Livro de Batismo nº 880 da Igreja San Leonardo de Rosola, comuna de Zocca. Este documento eu não tenho, porém o vi nas mãos da prima Ester e o texto diz assim:
“Nº 880 Libbro Battesimo
15/2/1848
Valentino Cesare figlio di Marco del fu [falecido] Giambattista Ferrari e dela Maria di [filha de] Carlo Flandi consorte [casal] habitante nella questa paroquia nato ieri notte 14/2/1848 alle ore 11 e mezza pomeridiane e stato solenemente batisato da me pároco oggi dopo pranzo [nascido nesta paróquia ontem à noite às 11 e meia e batizado hoje após o almoço].
Madrinha: Maria Bartolucci nubili [solteira, não casada] sorella [irmã] del pároco.
Pároco: Domenico Bartolucci.
Profissão: Operaio calciolaio [sapateiro]. Giornalero [trabalhava por dia].
[há duas notas escritas em português do que eu li em italiano: ‘não sabia ler’; ‘morreu em 6/10/1927 em Savignano sul Panaro’]”
Valentino Cesare Ferrari é o pai de Mario Ferrari.
Através deste documento, se descobre o fim de Cervara, o fim de “possidente” [proprietário] e a passagem para “calciolaio”, sapateiro. E o detalhe intrigante de que Valentino Cesare não sabia ler – o que pode indicar que ele já teria nascido, dezoito anos antes do pai morrer, bem longe de Cervara.
Sobre isso, o primo Marino Ferrari fez um comentário do que teria ouvido de seu pai Luigi, irmão de Mario, sobre seu bisavô, Marco, ter sido um homem muito generoso, muito bom e que emprestava dinheiro a amigos que depois não devolviam, e que daí teria se originado a perda de Cervara. Pode ser verdade, porém essa é um pouco a descrição que Marino deu de sua própria vida nos negócios – ter tido muito numa época e depois ter perdido isso. Também vem de Marino, através de seu pai, a informação de que Valentino teve um irmão padre e outro que se tornou carabinière, policial. De qualquer forma, Valentino Cesare Ferrari parece ter nascido e vivido sob a crise dessa perda e da mudança do campo para a cidade, de Cervara para Zocca e região, de proprietário para sapateiro. Paraíso perdido? Quem disse que Cervara era o paraíso?
quinta-feira, 29 de março de 2012
RÉQUIEM PARA UM FERREIRO
“La Nuit étoilée” [A noite estrelada], Saint Rémy, junho de 1889 de Vincent van Gogh in MoMA, The Museum of Modern Art, Nova Iorque.
Marco Giovanni Ferrari, Faber ferrarius, mestre artesão.
Um ferreiro lavrador, que pôs as mãos na terra para escavar,
para sulcar, para plantar, para retirar dela o objeto escondido,
o objeto perdido. Não achou.
Achou o metal incandescente, o metalitálico, corpo sideral.
Desse desencontro fez canções, as de ninar,
no berço de seus doze filhos,
as das histórias das viagens de Dante, de Colombo, de Marco Polo,
as do país da Cocanha, mundos novos, o espaço sideral,
Oceano Panaro.
Este homem, entre fiandeiras e costureiras, à beira do rio,
andou, coxeou, cambaleou, caiu, desfaleceu, morreu.
Restou uma centelha, dentre as ruínas, uma fagulha,
fogo ascendente, a iluminar a névoa.
Desnévoa agora.
Marco Giovanni Ferrari, Faber ferrarius, mestre artesão.
Um ferreiro lavrador, que pôs as mãos na terra para escavar,
para sulcar, para plantar, para retirar dela o objeto escondido,
o objeto perdido. Não achou.
Achou o metal incandescente, o metalitálico, corpo sideral.
Desse desencontro fez canções, as de ninar,
no berço de seus doze filhos,
as das histórias das viagens de Dante, de Colombo, de Marco Polo,
as do país da Cocanha, mundos novos, o espaço sideral,
Oceano Panaro.
Este homem, entre fiandeiras e costureiras, à beira do rio,
andou, coxeou, cambaleou, caiu, desfaleceu, morreu.
Restou uma centelha, dentre as ruínas, uma fagulha,
fogo ascendente, a iluminar a névoa.
Desnévoa agora.
quarta-feira, 28 de março de 2012
O TEMPO DA DESPEDIDA
Montagem de fotografias da casa de Cervara no álbum da família feita por Belkiss Ferrari em julho de 1994. Fotografia da montagem por Bernardo Ferrari, em 27 de março de 2012.
Talvez Marco Giovanni Ferrari tenha recebido parte de Cervara ou a casa toda de seus pais. Talvez Marco Giovanni tenha adquirido o terreno e feito a construção no período de sua vida. Não se sabe. O que se sabe é que Cervara foi uma casa grandiosa, uma verdadeira mansão, um palácio ou castelo no alto da montanha, à beira do rio Panaro. Na descrição da querida prima Ester, a casa era pintada de “vermelho Módena”, tinha vários quartos bem delimitados, inclusive com ferrolhos nas portas – talvez até para dividir a casa em duas, quem sabe para uma nova família Ferrari ali instalada ou quem sabe para os próprios pais de Marco Giovanni. Havia um sótão com fácil acesso a uma parte do telhado utilizada para secagem de grãos. Uma sala imensa, com uma lareira e, bem ao lado da lareira, uma estante de livros! Era ali que a família se reunia no inverno, se esquentava ao pé do fogo, liam para si e liam em voz alta para todos. Lá fora, um estábulo grande, para a criação de vacas, a produção do leite, matéria-prima para o Parmigiano, o queijo. Também havia no lado de fora da casa um enorme forno para assar pão, castanhas e outros alimentos. No terreno em volta, havia vestígios de antigas construções, quem sabe o lugar onde se criavam outros animais, inclusive porcos. Os campos ao redor, extremamente férteis. Havia quatro gigantescas castanheiras ao lado da casa e, certamente, o cultivo de muitas árvores frutíferas por ali. A casa foi construída no alto de uma colina e no sopé havia um bosque. Quando nasceu Anna Juliana, sua 12ª e última filha, eles ainda habitavam em Cervara. Talvez Marco Giovanni tenha morrido em Cervara. Ele morreu em 11 de abril de 1866, aos sessenta e quatro anos de idade. Anna Juliana tinha treze anos e Valentino Cesare, dezoito anos.
terça-feira, 27 de março de 2012
VIVA ITÁLIA!
Emigração para o Brasil, Argentina, Estados Unidos e Canadá entre 1880 e 1915. Fonte: Mark I. Choate in Emigrant Nation: The Making of Italy Abroad. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2008, p. 238.
Quando nasceu a 12ª filha de Marco Giovanni e de Maria Flandi, ela recebeu o nome de Anna Juliana Ferrari. Data de nascimento: 27 de julho de 1853. Esta data marca o início da unificação italiana, da criação da nacionalidade italiana. E também marca o início da grande emigração italiana para o mundo. É curioso registrar – ver quadro acima – que houve um período, entre 1885 e 1890, que o Brasil foi o destino preferido dos emigrantes – só muito depois substituído pelos Estados Unidos.
Sobre esse período, o historiador brasileiro João Fábio Bertonha, no indispensável “Os Italianos”, diz o seguinte:
“Quando da unificação, não mais que 2,5% dos habitantes do novo reino falavam italiano, quase todos membros da elite, e mesmo muitos desses só o usavam em certas ocasiões e não no dia-a-dia. Todos os outros falavam dialeto – napolitano, vêneto, piemontês e outros – e tão incompreensíveis entre si que alguns professores piemonteses, enviados a escolas da Sicília em fins do século XIX, foram tomados por ingleses pela população local. Em 1860, segundo algumas fontes, os camponeses sicilianos que viram o Exército de Garibaldi invadir a ilha aos gritos de “Viva Garibaldi! Viva a Itália!” teriam imaginado que Itália seria sua esposa, tão abstrato era, para eles, o conceito de “Itália”. (...) Compreende-se, assim, a famosa frase do piemontês Massimo d’Azeglio (1792-1866), segundo o qual “Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos”.”
Fonte: João Fábio Bertonha in Os Italianos. São Paulo: Contexto, 2005, p. 56.
Marco Giovanni Ferrari, aos cinquenta e um anos em 1853, pai pela última vez de seu 12º filho, viu com preocupação essas duas mudanças que se iniciavam. Uma, dentro de sua Emília-Romanha, e a outra para fora dela. Será possível continuar nessa terra, será possível permanecer aqui quando tudo parece estar mudando?
segunda-feira, 26 de março de 2012
TEMPO DA COLHEITA
Anúncio do “Prosciutto di San Daniele” [presunto cru de San Daniele], fabricado por um consórcio, uma cooperativa de produtores de San Daniele del Friuli, em Udine, Itália. Só utiliza porcos criados em dez regiões do Norte da Itália, dentre elas a Emilia Romagna. O anúncio foi publicado em página inteira do jornal La Repubblicca de Roma em 14 de novembro de 2010.
Na brincadeira do querido primo Marino diante do fato de Marco Giovanni e Maria Flandi terem tido doze filhos, ou seja, o que mais havia para se fazer em Cervara, há um enigma muito interessante. O que se fazia em Cervara além de filhos, é claro?
A resposta precisa de uma precisão maior na pergunta. O que fazia uma família de “possidentes” (donos da terra, donos da propriedade) de Cervara? E isso é muito importante, porque a primeira resposta é que eles não precisavam trabalhar só para os outros, não precisavam ser servos nem servidores de uma Itália ainda feudal no campo, bem longe do imaginário de uma Itália unificada e/ou renascentista, por exemplo. A Itália feudal permanece ainda hoje incrustada em cada cidadezinha, em cada povoado, em cada pedaço da Itália moderna. É por causa dela que teve início no século XIX a longa e impressionante emigração de seu povo, faminto, miserável, sem terra para plantar, sem terra onde viver, sem trabalho devido à “revolução” industrial que se aproximava lentamente com a promessa de suas máquinas “maravilhosas”, cuja primeira e mais cruel consequência foi não ter previsto nem ter se importado minimamente sobre o que fazer com quem era “substituído”, ou seja, o “resto” de milhões de pessoas absurdamente exiladas do ganha pão de cada dia. Para essa massa de desarvorados, não havia mais pão e não havia mais cada dia.
Ora, desta vez, pelo menos até os dezoito anos de Valentino Cesare Ferrari, isso não aconteceu na família Ferrari. Havia Cervara. Havia comida, havia água, havia onde morar. Havia cultivo de grãos, havia estábulo de vacas, havia criação de porcos – ou seja: faziam em Cervara – e fazem ainda nesta região – dois dos maiores produtos de exportação da Itália de hoje: o presunto cru e o único queijo que se pode chamar de parmesão no mundo, o “Parmigiano Reggiano”. Isso se fazia em Cervara. Pelo menos enquanto Marco Giovanni Ferrari foi “possidente”. Em breve isso mudaria.
Na brincadeira do querido primo Marino diante do fato de Marco Giovanni e Maria Flandi terem tido doze filhos, ou seja, o que mais havia para se fazer em Cervara, há um enigma muito interessante. O que se fazia em Cervara além de filhos, é claro?
A resposta precisa de uma precisão maior na pergunta. O que fazia uma família de “possidentes” (donos da terra, donos da propriedade) de Cervara? E isso é muito importante, porque a primeira resposta é que eles não precisavam trabalhar só para os outros, não precisavam ser servos nem servidores de uma Itália ainda feudal no campo, bem longe do imaginário de uma Itália unificada e/ou renascentista, por exemplo. A Itália feudal permanece ainda hoje incrustada em cada cidadezinha, em cada povoado, em cada pedaço da Itália moderna. É por causa dela que teve início no século XIX a longa e impressionante emigração de seu povo, faminto, miserável, sem terra para plantar, sem terra onde viver, sem trabalho devido à “revolução” industrial que se aproximava lentamente com a promessa de suas máquinas “maravilhosas”, cuja primeira e mais cruel consequência foi não ter previsto nem ter se importado minimamente sobre o que fazer com quem era “substituído”, ou seja, o “resto” de milhões de pessoas absurdamente exiladas do ganha pão de cada dia. Para essa massa de desarvorados, não havia mais pão e não havia mais cada dia.
Ora, desta vez, pelo menos até os dezoito anos de Valentino Cesare Ferrari, isso não aconteceu na família Ferrari. Havia Cervara. Havia comida, havia água, havia onde morar. Havia cultivo de grãos, havia estábulo de vacas, havia criação de porcos – ou seja: faziam em Cervara – e fazem ainda nesta região – dois dos maiores produtos de exportação da Itália de hoje: o presunto cru e o único queijo que se pode chamar de parmesão no mundo, o “Parmigiano Reggiano”. Isso se fazia em Cervara. Pelo menos enquanto Marco Giovanni Ferrari foi “possidente”. Em breve isso mudaria.
domingo, 25 de março de 2012
AURORAS
Detalhe do Livro de Batismo nº 339 da Igreja San Leonardo em Rosola, Zocca, província de Modena, Emilia-Romagna, Itália.
Marco Giovanni e Maria Flandi se casaram em 14 de outubro de
1831. O primeiro filho nasceu um ano depois, porém não sobreviveu. Se chamava
Giovanni Battista Inocenzo, nascido em 4 de janeiro de 1832. No ano seguinte,
nova tragédia. Anna Maria, nascida em 20 de fevereiro de 1833, também não
sobreviveu. Assim também no ano seguinte, quando nasceu Giovanni Batista Isidoro
em 4 de abril de 1834. Somente em 12 de junho de 1835, com o nascimento de
Pietro Giacomo, eles puderam comemorar. Pietro Giacomo é o único de todos os
filhos a estar registrado com a “condizione, professione, od arte” [condição,
profissão ou arte] de “studente”, estudante – uma raridade na época. Dois anos
depois, em 14 de maio de 1837, nasceu Anna Maria, profissão “sarta”
[costureira] e a única das mulheres a se casar – segundo esta certidão de
batismo. Ela se casou com Giovanni Benelli em data não registrada. De qualquer modo,
eis aí novos primos em nossas vidas – quando encontrarmos um Benelli desta região
da Itália, poderemos cumprimentá-lo com alegria: ali estará a presença de Anna Maria. Dois anos depois do nascimento de Anna Maria, em 11
de janeiro de 1839, nasceu Angiola, profissão “filatrice” [fiandeira]. Dois
anos depois, em 16 de dezembro de 1841, nasce Domenico Eusébio. Aí, três anos
depois, nasce Luigia Aurora Maria, em 9 de julho de 1844. Que nome mais lindo,
Aurora! O que terá acontecido com ela? Terá sua vida cumprido esta promessa
inscrita no próprio nome? O que se sabe é que, dois anos depois, em 20 de maio
de 1846, nasceria Luigi. E então, dois anos depois, Valentino Cesare, em 15 de
fevereiro de 1848. Mais uma vez, dois anos depois, novo nascimento: em 20 de outubro
de 1850, Marco Domenico. Três anos depois, o último nascimento registrado: em
27 de julho de 1853, o nascimento de Anna Giuliana. Ela foi a 12ª e última
filha deste casal. Como brincou o querido primo Marino diante desta espetacular
quantidade, o que mais fazer em Cervara?
Há aqui quatro
mistérios neste livro de batismo. O primeiro deles: os nomes de Maria Teresa, a
irmã de Marco, dos filhos de Marco, Anna Maria e Angiola e de seu servidor
Emilio Tonelli, estão riscados, com um traço horizontal. Provavelmente, isso
significa que eles estão registrados também em outro livro de batismo. Da mesma
forma o segundo mistério, que são os traços verticais sobre todos os nomes.
Provavelmente isso indica a transferência desses registros para outro livro. O
terceiro mistério é que as crianças que não sobreviveram, não estão registradas
nesta página – assim, Giovanni Battista Inocenzo, Anna Maria e Giovanni Batista
Isidoro, não aparecem registrados com seus irmãos. Talvez fosse um costume
desses sacristãos-escreventes, o de registrar os recém-nascidos mortos em
outro livro – provavelmente porque não houve tempo de batizá-los. O quarto
mistério é que quase todos os nascimentos estão registrados em ordem
cronológica da data de nascimento, exceto os nascimentos de Valentino e de
Luigi. Estranhíssimo que Valentino, nascido em 1848, venha antes de Luigi,
nascido dois anos antes. A hipótese é que eles tenham sido batizados bem mais
velhos – porém, o mistério continua. A mais nova dos irmãos, Anna Giuliana,
aparece na ordem certa – e se ela foi batizada logo, porque seus irmãos
Valentino e Luigi não? Dentro deste mistério, por que o servidor Emilio Tonelli
está registrado antes de Valentino e Luigi? Não faço ideia.
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sábado, 24 de março de 2012
OUTUBRO
Trecho do rio Panaro próximo a Formigine, província de Módena, por Daniela, “DenikaModdafuccka”, em 23 de junho de 2010.
Havia muitas pedras no meio do caminho. Mas um dia, em 14 de outubro de 1831, Marco Giovanni Ferrari se casou com Maria Flandi. Ele tinha 29 anos. Eles tiveram 12 filhos, dentro os quais Valentino Cesare, nascido em 15 de fevereiro de 1848.
sexta-feira, 23 de março de 2012
TRAVESSURAS
A estação de trem de Carazinho, Rio Grande do Sul, Brasil, aproximadamente 1920.
Giambattista lhe passou o “b” e o “a”.
Anna Ugolini lhe deu o “l”.
Marco Giovanni lhe trouxe o “r”.
Maria Flandi lhe deixou o “i”.
De seu pai, Valentino Cesare, veio o “s”.
B-R-A-S-I-L.
E assim Mario veio, pelo mar, pelo amar.
Por causa destas letras, à procura dessas letras.
Letras do desejo, letras paternas, letras maternas,
letras que se inscrevem sem pedir licença,
letras faladas desde o berço,
letras fundadas, letras fecundas.
Letras de amor.
Para Jacques Lacan, in memoriam, que um dia escreveu sobre a letra no inconsciente e para Alduísio Moreira de Souza, analista querido, conhecedor da arte de atravessar os rios e os mares, os sertões e as veredas.
Giambattista lhe passou o “b” e o “a”.
Anna Ugolini lhe deu o “l”.
Marco Giovanni lhe trouxe o “r”.
Maria Flandi lhe deixou o “i”.
De seu pai, Valentino Cesare, veio o “s”.
B-R-A-S-I-L.
E assim Mario veio, pelo mar, pelo amar.
Por causa destas letras, à procura dessas letras.
Letras do desejo, letras paternas, letras maternas,
letras que se inscrevem sem pedir licença,
letras faladas desde o berço,
letras fundadas, letras fecundas.
Letras de amor.
quinta-feira, 22 de março de 2012
TRAVESSIAS
Fotografia de Nobuo Asada.
Marco Giovanni Ferrari, 1831. A travessia do rio Panaro.
Mario Ferrari, 1926. A travessia do Oceano Atlântico.
De avô para neto, no meio do caminho da vida,
atravessados pelo que não controlavam,
habitados por fantasias diferentes, palavras outras,
pensamentos inquietantes e sonhos estranhos, tropeços dolorosos,
foram levados a saírem de perto de si mesmos.
Um foi parar ali ao lado, em Verica. De onde voltou acompanhado.
O outro foi parar bem longe, no Brasil. De onde nunca mais retornou.
quarta-feira, 21 de março de 2012
DE UMA MARGEM À OUTRA
A Ponte de Olina, construída em 1522, sobre o rio Panaro, na comuna de Pavullo nel Frignano, província de Módena, Emília-Romanha, Itália. Fonte: Wikipedia.
Seus olhos, a luz. Seu olhar, a Vênus. Seus olhos, contrastes. Seu olhar, o movimento dos pés dela nas águas daquele rio, corrente, rio, constante, rio, caudaloso, rio, Amazonas, rio, Grande do Sul, rio, Iguaçu, rio, de Janeiro, rio, cá é rasinho rio, o Jordan’s. Seus olhos, reflexos. Seu olhar, a passagem de uma margem à outra, um pulo, raso, um salto, raso, uma caminhada pelo leito dela, do rio, pela beira dela, do rio, por dentro do rio, o Panaro, afluente do Pó, daquele que viestes e daquele que, não, ainda não. Seus olhos, líquidos. Seu olhar, a bolsa no ventre dela, madonna, a bolsa ou a vida, como se escolha houvesse. Seus olhos, semi-abertos, semicerrados. Seu olhar, mesmo no sono, em sonhos, o sorriso dela disfarçado, aquele que lhe fez dar a volta, desfigurado, entrecortado, as cordas do cordão rompido, o umbilical, a vida em haver, créditos de um débito. Seus olhos, é dia. Seu olhar, é tempo. Para seus olhos, um vulto. Para seu olhar, Maria Flandi. Mia donna.
Seus olhos, a luz. Seu olhar, a Vênus. Seus olhos, contrastes. Seu olhar, o movimento dos pés dela nas águas daquele rio, corrente, rio, constante, rio, caudaloso, rio, Amazonas, rio, Grande do Sul, rio, Iguaçu, rio, de Janeiro, rio, cá é rasinho rio, o Jordan’s. Seus olhos, reflexos. Seu olhar, a passagem de uma margem à outra, um pulo, raso, um salto, raso, uma caminhada pelo leito dela, do rio, pela beira dela, do rio, por dentro do rio, o Panaro, afluente do Pó, daquele que viestes e daquele que, não, ainda não. Seus olhos, líquidos. Seu olhar, a bolsa no ventre dela, madonna, a bolsa ou a vida, como se escolha houvesse. Seus olhos, semi-abertos, semicerrados. Seu olhar, mesmo no sono, em sonhos, o sorriso dela disfarçado, aquele que lhe fez dar a volta, desfigurado, entrecortado, as cordas do cordão rompido, o umbilical, a vida em haver, créditos de um débito. Seus olhos, é dia. Seu olhar, é tempo. Para seus olhos, um vulto. Para seu olhar, Maria Flandi. Mia donna.
terça-feira, 20 de março de 2012
DO OUTRO LADO DO RIO
Detalhe do quadro “O Casal Arnolfini” de Jan van
Eyck, 1434, óleo sobre tábua in Natinal Gallery, Londres.
Marco Giovanni Ferrari, filho de Giambattista
Ferrari e de Anna Ugolini, nascido em 1º. de novembro de 1802 em Rosola, se
casou, em 1831, com Maria Flandi, filha de Carlo Flandi e Maria
Fulgeri, oriunda de Verica.
Sobre este casamento, a querida prima Ester falava
com lágrimas nos olhos. Para ela, Marco Giovanni um dia viu, do outro lado do
rio Panaro, que passava rente, colado à sua casa, em Cervara, Maria Flandi. O
que fazia Maria Flandi do outro lado do rio? É aqui que minhas lágrimas
começam. Estaria ela se banhando, como Betsabé o fez, lentamente, para o rei
Davi – que se viu subitamente rei de nada diante daquela beleza? Quero pensar
em Betsabé mas um verso se intromete subitamente, o verso de Dante que anuncia
Matelda, “come si volge, con le piante strette a terra e intra sé, donna che
balli”, com os pés bem rentes ao chão ela rodopia, bailarina graciosa, “e piede
innanzi piede a pena mette”, e pé ante pé, pés manhosos, pés arteiros, “volsesi
in su i vermigli e in su i gialli fioretti verso me, no altrimenti che vergine
che li occhi onesti avvalli”, a Marco se voltou lá na campina, lá na montanha,
lá na beira-rio, lá em Cervara, vermelha e amarela, outono que se aproxima, à
graça virginal de Maria Flandi – seria ela de origem francesa? Holandesa?
Belga? “Tosto che fu lá dove l’erbe sono bagnate già da l’onde del bel fiume,
di levar li occhi suoi mi fece dono”, então chegada ao ponto, à ponte, em que a
fina erva era banhada pela água cristalina do rio Panaro, rio da vida, rio do
amor, ela deu a mão para Marco na travessia, ela deu a graça de nos olhos dele
descansar os seus, para daí ele fazer o pedido decisivo – o de toda a vida.
domingo, 18 de março de 2012
O SONHO DA RAZÃO
“Fuzilamentos de 3 de maio de 1808” de Francisco de Goya, Espanha, pintado em 1814 como um retrato da passagem de Napoleão pela Espanha.
Marco Giovanni Ferrari nasceu em 1º de novembro de 1802 no território de Rosola, comuna de Zocca, província de Módena, região da Emilia-Romagna, Itália.
Desta descrição, apenas o último termo, “Itália” não existia em 1802. Se Marco tivesse nascido cinco anos antes, em 1797, ele teria respirado brevemente o ar do que se chamava na época de Ducado de Módena. Porém, cinco anos depois, em 1802, toda essa região havia sido invadida por um francês chamado Napoleão Bonaparte e batizada com um novo nome: República Cisalpina. Falar em Napoleão é falar na Revolução Francesa. E falar em Revolução Francesa é falar no fim do feudalismo, o fim de uma época, e o advento de um novo sujeito chamado “cidadãos livres e iguais perante a lei”. Começava a nascer ali a ideia de nação ou, em italiano, o Risorgimento, ressurgimento, a criação de um Estado independente italiano.
Se antes de Napoleão, os Ferrari eram súditos de duques, príncipes, reis e Papas, com Napoleão eles passaram a ser súditos de um general francês. Como? Não era para virarem “cidadãos livres e iguais perante a lei”? É que fora da França, a França não era a França. Era Napoleão. Quem percebeu isso com uma dor enorme foi o grande artista espanhol Goya. Este homem que foi dormir e sonhar com a Revolução Francesa e os milagres que ela poderia fazer em sua Espanha miserável, acordou debaixo das botas de Napoleão. Sonhou com a razão, acordou com o monstro. Pois Marco Giovanni nasceu em uma região ocupada, cercada, vigiada a baionetas pelas tropas de Napoleão. Pior. Quando completou dez anos de idade, ele viu seus primos mais velhos serem convocados às armas, com milhares de napolitanos, toscanos e piemonteses, para participar de uma das maiores loucuras da história, a invasão da Rússia pelo exército francês. Não era a primeira vez que os Ferrari eram chamados à guerra, mas foi a primeira vez que tiveram que se deslocar a tão grande distância e, pior, em condições absurdamente miseráveis. Desnecessário dizer que de lá não voltou ninguém para contar a história. Essa tragédia, que já era uma farsa descomunal na época, retornaria igual um século e meio depois – trocando-se a bandeira da França pela da Alemanha. Aliás, diga-se de passagem que a bandeira atual é a dos Estados Unidos, onde italianos morrem diariamente no Iraque e no Afeganistão sob ordens gritadas em inglês. Risorgimento? Marco Giovanni tinha um problema nas mãos: como caminhar por ali sem perecer, sem se machucar demais, sem desaparecer.
Marco Giovanni Ferrari nasceu em 1º de novembro de 1802 no território de Rosola, comuna de Zocca, província de Módena, região da Emilia-Romagna, Itália.
Desta descrição, apenas o último termo, “Itália” não existia em 1802. Se Marco tivesse nascido cinco anos antes, em 1797, ele teria respirado brevemente o ar do que se chamava na época de Ducado de Módena. Porém, cinco anos depois, em 1802, toda essa região havia sido invadida por um francês chamado Napoleão Bonaparte e batizada com um novo nome: República Cisalpina. Falar em Napoleão é falar na Revolução Francesa. E falar em Revolução Francesa é falar no fim do feudalismo, o fim de uma época, e o advento de um novo sujeito chamado “cidadãos livres e iguais perante a lei”. Começava a nascer ali a ideia de nação ou, em italiano, o Risorgimento, ressurgimento, a criação de um Estado independente italiano.
Se antes de Napoleão, os Ferrari eram súditos de duques, príncipes, reis e Papas, com Napoleão eles passaram a ser súditos de um general francês. Como? Não era para virarem “cidadãos livres e iguais perante a lei”? É que fora da França, a França não era a França. Era Napoleão. Quem percebeu isso com uma dor enorme foi o grande artista espanhol Goya. Este homem que foi dormir e sonhar com a Revolução Francesa e os milagres que ela poderia fazer em sua Espanha miserável, acordou debaixo das botas de Napoleão. Sonhou com a razão, acordou com o monstro. Pois Marco Giovanni nasceu em uma região ocupada, cercada, vigiada a baionetas pelas tropas de Napoleão. Pior. Quando completou dez anos de idade, ele viu seus primos mais velhos serem convocados às armas, com milhares de napolitanos, toscanos e piemonteses, para participar de uma das maiores loucuras da história, a invasão da Rússia pelo exército francês. Não era a primeira vez que os Ferrari eram chamados à guerra, mas foi a primeira vez que tiveram que se deslocar a tão grande distância e, pior, em condições absurdamente miseráveis. Desnecessário dizer que de lá não voltou ninguém para contar a história. Essa tragédia, que já era uma farsa descomunal na época, retornaria igual um século e meio depois – trocando-se a bandeira da França pela da Alemanha. Aliás, diga-se de passagem que a bandeira atual é a dos Estados Unidos, onde italianos morrem diariamente no Iraque e no Afeganistão sob ordens gritadas em inglês. Risorgimento? Marco Giovanni tinha um problema nas mãos: como caminhar por ali sem perecer, sem se machucar demais, sem desaparecer.
sábado, 17 de março de 2012
MUNDOS NOVOS
Mapa do mundo do cartógrafo alemão Heinrich Hammer que viveu e trabalhou em Florença no período de 1480 a 1496. Lá ele ficou conhecido como Henricus Martellus Germanus. É provável que Colombo tenha utilizado este mapa para convencer os reis católicos da Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, a patrocinar sua viagem. Através deste mapa, ele provou que não havia grande distância entre a Europa e a China pelo oceano. O mapa também foi o primeiro a mostrar a passagem, a dobra do Cabo da Boa Esperança feita pelos portugueses no sul da África em 1488.
Carlo Ginzburg no seu belíssimo O Queijo e os Vermes (Il Formaggio e i vermi) traz uma outra versão do País da Cocanha, publicada quase que na mesma época, menos bem-humorada ou, nas palavras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), menos dionisíaca e mais apolínea, menos embriagadora, menos o que deve vir e mais o que é, mais medida, mais harmonia:
“Já Anton Francesco Doni usou uma linguagem totalmente diversa numa das primeiras e mais conhecidas utopias italianas do século XVI: o diálogo, inserido no Mondi (1552), intitulado justamente: “Um mundo novo”. O tom aqui é seriíssimo; o conteúdo, diferente. A utopia de Doni não é camponesa como a do país da Cocanha, mas rigorosamente urbana, localizada numa cidade cuja planta tem forma de estrela. Além disso, os habitantes do “mundo novo” descrito por Doni levam uma vida sóbria (“me agrada esta ordem que apagou o vitupério das bebedeiras [...] o empanturramento de cinco, seis horas à mesa”), totalmente distante das pândegas da Cocanha. Entretanto, o mesmo Doni fundia o antigo mito da idade do ouro com o quadro de inocência e de pureza primitivas traçado pelos primeiros relatórios sobre o continente americano. A alusão àquelas terras estava implícita, somente: o mundo descrito por Doni era apenas “um mundo novo diverso deste”. Graças a essa ambígua expressão, pela primeira vez na literatura utópica o modelo da sociedade perfeita podia ser projetado no tempo, no futuro, e não no espaço, numa terra inacessível.”
Fonte: Carlo Ginzburg in O Queijo e os Vermes. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 167.
Essas versões dos pais, seja a carnavalesca utopia camponesa da Cocanha, seja a quarta-feira de cinzas de Doni, passaram de Giambattista para seus filhos, dentro eles Marco Giovanni. De Marco Giovanni para seus filhos, dentre os quais, Valentino Cesare. De Valentino Cesare para seus filhos, dentre eles Mario Ferrari. De geração em geração, essas versões foram misturadas e remexidas, foram alteradas e ditas pela metade, ditas como brincadeira, ditas com seriedade, meio-ditas, mal ditas, bem ditas. Um dia, Mario faria com elas a sua versão.
Carlo Ginzburg no seu belíssimo O Queijo e os Vermes (Il Formaggio e i vermi) traz uma outra versão do País da Cocanha, publicada quase que na mesma época, menos bem-humorada ou, nas palavras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), menos dionisíaca e mais apolínea, menos embriagadora, menos o que deve vir e mais o que é, mais medida, mais harmonia:
“Já Anton Francesco Doni usou uma linguagem totalmente diversa numa das primeiras e mais conhecidas utopias italianas do século XVI: o diálogo, inserido no Mondi (1552), intitulado justamente: “Um mundo novo”. O tom aqui é seriíssimo; o conteúdo, diferente. A utopia de Doni não é camponesa como a do país da Cocanha, mas rigorosamente urbana, localizada numa cidade cuja planta tem forma de estrela. Além disso, os habitantes do “mundo novo” descrito por Doni levam uma vida sóbria (“me agrada esta ordem que apagou o vitupério das bebedeiras [...] o empanturramento de cinco, seis horas à mesa”), totalmente distante das pândegas da Cocanha. Entretanto, o mesmo Doni fundia o antigo mito da idade do ouro com o quadro de inocência e de pureza primitivas traçado pelos primeiros relatórios sobre o continente americano. A alusão àquelas terras estava implícita, somente: o mundo descrito por Doni era apenas “um mundo novo diverso deste”. Graças a essa ambígua expressão, pela primeira vez na literatura utópica o modelo da sociedade perfeita podia ser projetado no tempo, no futuro, e não no espaço, numa terra inacessível.”
Fonte: Carlo Ginzburg in O Queijo e os Vermes. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 167.
Essas versões dos pais, seja a carnavalesca utopia camponesa da Cocanha, seja a quarta-feira de cinzas de Doni, passaram de Giambattista para seus filhos, dentro eles Marco Giovanni. De Marco Giovanni para seus filhos, dentre os quais, Valentino Cesare. De Valentino Cesare para seus filhos, dentre eles Mario Ferrari. De geração em geração, essas versões foram misturadas e remexidas, foram alteradas e ditas pela metade, ditas como brincadeira, ditas com seriedade, meio-ditas, mal ditas, bem ditas. Um dia, Mario faria com elas a sua versão.
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